segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ai! Se Sêsse!...

Se um día nós se gostásse;
Se um día nós de querêsse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivêsse!
Se juntinho nós dois morásse;
Se juntinho nós dois drumísse;
Se juntinhos nós dois morrêsse!
Se prô céu nós assubísse!?
Mas porém, se acontecêsse,
Qui São Pedro não abrísse
As porta do céu e fôsse,
Te dizê quarqué toulice?
E se eu me arriminásse
E tu cum eu insistísse,
Prá qui eu me arrezorvêsse
E a minha faca puchásse,
E o buxo do céu furásse?...
Tarvez qui nós dois caísse,
E o céu furado arriásse
E as Virge tôdas fugísse!!!


Zé da Luz

sábado, 15 de janeiro de 2011

Justiça

Quem és tu dona da sabedoria?
Tu que vagas pelas ações incertas
Tentando trazer para as mesmas alguma luz da certeza
Ás vezes és tão solitária
Devido a tua frágil incompreensão
Mas se no momento certo tu ages
Não há nenhum argumento camuflado
Que possa encarar a tua flamejante face
Ou esquivar-se da tua lâmina cintilante
Oh! nobre senhora
Porque demoras tanto em mostrar-se
Os teus filhos clamam por ti
Vêm amparar os justos...


D.A


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.




Fernando Pessoa