quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A Outra

Amamos sempre no que temos
O que não temos quando amamos.
O barco pára, largo os remos
E, um ao outro, as mãos nos damos.
A quem dou as mãos?
À Outra.


Teus beijos são de mel de boca,
São os que sempre pensei dar,
E agora a minha boca toca
A boca que sonhei beijar.
De quem é a boca?
Da Outra.


Os remos já caíram na água,
O barco faz o que a água quer.
Meus braços vingam minha mágoa
No abraço que enfim podem ter.
Quem abraço?
A Outra.


Bem sei, és bela, és quem desejei...
Não deixe a vida que eu deseje
Mais que o que pode ser teu beijo
O poder ser eu que te beije.
Beijo, e em quem penso?
Na Outra.


Os remos vão perdidos já,
O barco vai não sei para onde.
Que fresco o teu sorriso está,
Ah, meu amor, e o que ele esconde!
Que é do sorriso
Da Outra?


Ah, talvez, mortos ambos nós,
Num outro rio sem lugar
Em outro barco outra vez sós
Possamos nós recomeçar
Que talvez sejas
A Outra.


Mas não, nem onde essa paisagem
É sob eterna luz eterna
Te acharei mais que alguém na viagem
Que amei com ansiedade terna
Por ser parecida
Com a Outra.


Ah, por ora, ido remo e rumo,
Dá-me as mãos, a boca, o teu ser.
Façamos desta hora um resumo
Do que não poderemos ter.
Nesta hora, a única,
Sê a Outra.


Fernando Pessoa





terça-feira, 19 de julho de 2011

When you have gone

(just a song for someone who's gone)




When I close my eyes
I can't feel her anymore
Cause you have gone away
And I don't know why


Maybe you can say me
Sometimes I wanna scream


I loved you in the sunset
I loved you for all long my days
I loved you with all I had
Maybe so you killed it


I remember about us
I gave you the truth
But you didn't want it
And you gave me the lie


that smile made me happy
but today it makes me bleed


I loved you in the sunset
I loved you for all long my days
I loved you with all I had
Maybe so you killed it




quinta-feira, 30 de junho de 2011

PRÓLOGO DO INTERMEZZO

Um cavalheiro havia, taciturno,
Que o rosto magro e macilento tinha.
Vagava como quem de algum noturno
Sonho levado, trépido caminha.
Tão alheio, tão frio, tão soturno,
Que a moça em flor e a lépida florinha,
Quando passar tropegamente o viam,
Às escondidas dele escarneciam.


A miúdo buscava a mais sombria 
Parte da casa, por fugir à gente;
Daquele posto os braços estendia
Tomado de desejo impaciente.
Uma palavra só não proferia.
Mas, pela meia-noite, de repente,
Estranho canto e música escutava,
E logo alguém que à porta lhe tocava.


Furtivamente então entrava a amada
O vestido de espumas arrastando,
Tão vivamente fresca e tão corada
Como a rosa que vem desabrochando;
Brilha o véu; pela esbelta e delicada
Figura as tranças soltas vão brincando;
Os meigos olhos dela os dele fitam,
E um ao outro de ardor se precipitam.


Com a força que amor somente gera,
O peito a cinge, agora afogueado;
O descorado as cores recupera,
E o retraído acaba namorado,
O sonhador desfaz-se da quimera...
Ela o excita, com gesto calculado;
Na cabeça lhe lança levemente
O adamantino véu alvo e luzente.


Ei-lo se vê em sala cristalina
De aquático palácio. Com espanto
Olha, e de olhar a fábrica divina
Quase os olhos lhe cegam. Entretanto,
Junto ao úmido seio a bela ondina
O aperta tanto, tanto, tanto, tanto...
Vão as bodas seguir-se. As notas belas
Vêm tirando das cítaras donzelas.


As notas vêm tirando, e deleitosas
Cantam, e cada uma a dança tece
Erguendo ao ar as plantas graciosas.
Ele, que todo e todo se embevece,
Deixa-se ir nessas horas amorosas...
Mas o clarão de súbito fenece,
E o noivo torna à pálida tristura
Da antiga, solitária alcova escura.

M. de A.



sábado, 4 de junho de 2011

Loneliness

Tu podes chegar aos poucos
Ou mesmo desenfreada
Mas a certeza é que invades 
Sem pedir ao menos consentimento
Todo o pensamento fraco dos dias
Que agora arrastam toda já inexistente alegria


Nunca vens sozinha
Sempre carrega consigo
A tristeza da ausência 
E a dúvida do amanhã
Corroendo aos poucos
Qualquer resquício esperançoso


Procurar solução pra ti?
Não encontro, nem ouso encontrar
Porque pra ti não há cura, 
Só existe apenas o pesar
Que enquanto durares
Meu coração sempre se fará calar


D.A       


terça-feira, 17 de maio de 2011

Sorri

Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz





 Charles Chaplin/G.Parson/J. Turner - versão: Braguinha







sábado, 30 de abril de 2011

Esperança

Quando o primeiro raio do astro maior
Reluzir no topo do infinito
Mostrando tudo o que estava escondido
Os campos da  verdade,
Antes inférteis e incolores,
Se iluminarão mostrando toda a sua beleza
E florescendo todos os frutos do conhecimento


Então não haverá mais incógnitas
Nem questionamentos inúteis
Nem a decepção de outrora
Ou a dor do não entendimento dos porquês


A razão caminhará com a paixão
A tolerância com o respeito
E a fidelidade com o amor.




D.A





domingo, 10 de abril de 2011

Saudade

Saudade é solidão acompanhada, 
é quando o amor ainda não foi embora, 
mas o amado já... 

Saudade é amar um passado que ainda não passou, 
é recusar um presente que nos machuca, 
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais... 

Saudade é o inferno dos que perderam, 
é a dor dos que ficaram para trás, 
é o gosto de morte na boca dos que continuam... 

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: 
aquela que nunca amou. 

E esse é o maior dos sofrimentos: 
não ter por quem sentir saudades, 
passar pela vida e não viver. 

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.





Pablo Neruda















domingo, 20 de março de 2011

Além das Palavras

Lembro-me bem do momento que te falei
Envolto num gostoso e confortável assunto
E que ao momento nem lembro onde parei
Mas te prometi versos a fundo

Ora, nobre senhora para isto não necessitam palavras
Ao pouco que te conheço palavras a ti não cabem
Por mais sinceras ou inebriantemente infundadas
Todo meu esforço e inspiração nada valem

Palavras são pequenos pingos de sentimento
E demoraria uma vida para falar de ti contando gotas
Pois tu desperta emoção a todo momento
Diante de pessoas como esta, bobas e tolas

Tu se apresentas a minha alma
Como uma ser pulsante, uma erupção
Chegando a entorpecer minha mente calma
Avivando os sentidos e a deriva um coração

Perdoe-me a demora da promessa
E da minha mente simples e inesperiente
Mas não consegui achar algo mais belo
Claro! a mais bela não se resume em versos



D.A.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ai! Se Sêsse!...

Se um día nós se gostásse;
Se um día nós de querêsse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivêsse!
Se juntinho nós dois morásse;
Se juntinho nós dois drumísse;
Se juntinhos nós dois morrêsse!
Se prô céu nós assubísse!?
Mas porém, se acontecêsse,
Qui São Pedro não abrísse
As porta do céu e fôsse,
Te dizê quarqué toulice?
E se eu me arriminásse
E tu cum eu insistísse,
Prá qui eu me arrezorvêsse
E a minha faca puchásse,
E o buxo do céu furásse?...
Tarvez qui nós dois caísse,
E o céu furado arriásse
E as Virge tôdas fugísse!!!


Zé da Luz

sábado, 15 de janeiro de 2011

Justiça

Quem és tu dona da sabedoria?
Tu que vagas pelas ações incertas
Tentando trazer para as mesmas alguma luz da certeza
Ás vezes és tão solitária
Devido a tua frágil incompreensão
Mas se no momento certo tu ages
Não há nenhum argumento camuflado
Que possa encarar a tua flamejante face
Ou esquivar-se da tua lâmina cintilante
Oh! nobre senhora
Porque demoras tanto em mostrar-se
Os teus filhos clamam por ti
Vêm amparar os justos...


D.A


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.




Fernando Pessoa